Bueno, na empolgação de textos publicados vou publicar um que fiz pra um concurso de reportagem. Não deu em nada, mas o texto vale a pena.
Mais do que convencidos, convertidos
Para eles, saber da existência de Deus não foi o suficiente. Conheça os jovens da considerada como “geração dos excessos” que foram buscar limites nas igrejas evangélicas.
“Entendo de balada. Já beijei e dancei muito. Mas no fim da noite um vazio tomava conta de mim: era a falta dele”. Quem ouve a estudante de Farmácia, Thaís de Oliveira, deduz que ela sente saudades algum relacionamento acabado. No entanto, o vazio que ela descreve se dá pelo tempo em que ficou afastada da igreja a qual pertence. Evangélica de berço, com a vinda da juventude Thaís decidiu afastar-se da igreja.
Para isso abriu mão da doutrina dos popularmente chamados crentes. Mesmo com imposições sobre álcool, festas e sexo, há um crescimento no número de jovens trilhando o caminho inverso ao de Thaís. Essa geração é conhecida como “novos convertidos”.
É o caso da jornalista Fernanda Santiago Valente. Ela conta que passou a frequentar a igreja por convite de amigos em um momento complicado da vida: “Meu irmão havia sido desenganado pelos médicos e eu, em função disso estava em depressão”. A jornalista diz que foi bem recebida e acolhida com carinho. Isso trouxe uma sensação boa. “Aprendi a orar e Deus fez milagres tremendos por isso não o largo mais de jeito nenhum”, revela.
O que hoje é um final feliz, nem sempre foi assim. Ser evangélico significa mudança de hábitos da sociedade atual. Com Fernanda não foi diferente. “Seguir a Jesus implicava em abrir mão de certas coisas. Eu era baladeira, bebia e falava muito palavrão”, confessa.
Tal etapa é considerada a mais difícil. Muitos jovens param por aí. Para Thaís isso acontece porque eles estão apenas convencidos da existência de Deus. “É preciso conversão”, completa.
A mudança de costumes que para muitos é empecilho, para Débora Caberlon Silveira, de 20 anos, serviu como força. “Não foi difícil perceber que os hábitos que eu tinham eram maus, e ninguém quer pra si algo destrutivo” é o que ela responde ao ser indagada sobre seus hábitos perante a nova decisão religiosa. Convertida há pouco mais de 2 anos, Débora casou-se, coisa que para os jovens parece algo geralmente distante de acontecer. Nada que foi feito gera arrependimento, pelo contrário, sua sensação é paz de espírito. “Quando se tem Jesus ao nosso lado, conseguimos força para encarar qualquer situação, nada é difícil na companhia dele”, completa.
De acordo com pesquisa do instituto CNT/Sensus encomendada pela revista Veja, embora ainda maioria, a igreja católica está perdendo anualmente cerca de um milhão de fiéis. E para onde estão indo? Em grande parte para as igrejas protestantes. Os evangélicos passaram de 2,6% em 1940 a 20% na atualidade. Dentre a juventude, o crescimento representa cerca de 17% anuais.
Mesmo com conceitos claros de que não se pode beber, fumar ou fazer sexo fora do casamento a rigidez da doutrina se flexibilizou com o tempo. Isso fez com que os jovens passassem a sentir maior intimidade com as igrejas, migrando em grande número para as mesmas. O título de “crente” não incomoda mais. Pelo contrário, a juventude está se mostrando orgulhosa de adotar um princípio aparentemente contrário ao gosto da maioria. Muitos jovens, angustiados com a vida desregrada buscam limites sólidos nas escrituras sagradas. Promessa de redenção oferecida por determinadas igrejas também é um grande atrativo.
“O mundo tem um lema: ser feliz a qualquer preço custe o que custar, sem limites, sem regras. O ônus disso é um vazio interior que muitos tentam preencher com drogas, sexo sem limites e de todas as formas, rebeldia, bebida, violência”, é o que afirma o Pastor da Igreja Batista de Santos, Cláudio Padilha, que se converteu aos 33 anos de idade.
Para atingir êxito nesse processo de conversão, as igrejas evangélicas acabaram abrindo mão de certas rigorosidades que a caracterizavam. Saias longas, unhas por fazer, cabelos sem corte. Torna-se cada vez mais raro encontrar figurinos como estes dentro dos cultos. Em meio a um interesse por Jesus Cristo está se deixando de lado a religião a qual se pertence. “É importante saber que religião não salva e que Jesus não é religião. Ele é um amigo disposto a nos amar incondicionalmente, isso é o que vem despertando o povo”, salienta Cláudio Padilha.
Sobre impedimentos, Débora é clara: “Não fui proibida de nada, porque tenho livre arbítrio. Mas, com o tempo, o encontro com Deus fez com que eu mudasse meus hábitos”. Fernanda completa: “Você pode ir a qualquer lugar, mas o segredo é influenciar o local e não ser influenciado por ele”.
Embora, mesmo flexível, os evangélicos ainda sejam considerados rígidos meio a um mundo sem limites, os novos convertidos entrevistados são unânimes em relação ao sentimento sobre o passado. Se pudessem, teriam vivido na doutrina evangélica desde o berço. Isso se dá “devido à nova perspectiva de vida, novos valores, discernimento espiritual, sabedoria, motivação, objetivos e metas de vida e, principalmente a Salvação” é o que concluem.