O dia havia sido frio e ela estava ensopada de uma chuva inesperada na saída do metrô. Chegou em casa, afagou sua gata tomou uma ducha enquanto a água para o chá fervia. Fez uma caneca bem grande, deitou-se no sofá e dormiu.
Não sabia se sonhava ou se apenas pensava em forma de transe, mas parou para refletir na sua vida. Provavelmente um dos efeitos da chegada da fase balzaquiana fazia um pouco mais de cinco anos desde que ele havia ido embora. Tão estranho.
Era reveillon de 1995 e eles comemoravam o sucesso profissional que havia se consolidado naquele ano. Sentados em uma duna de areia refletiam como era legal chegar aos 20 anos livre de qualquer droga que não fosse o rock’n’roll. Eram os melhores amigos desde que o mundo sabia da existência de ambos. Ele sempre dizia que ela “sou eu de calças”. Ela ria. Mas no fundo sempre quis ser mais que isso.

Mais de cinco anos se passaram desde aquele reveillon de 1995
E foi então que pela primeira vez na história deles ela teve coragem de “tirar as calças” e disse na cara dura que não queria ser só sua amiga. Que doía para ela posar de casal do ano ao seu lado e no outro dia sair com qualquer uma.
Ele ficou chocado. Não sabia o que dizer. Disse que nunca tinha visto de outra forma que não uma amiga. Que a amava daquele jeito.
Teria sido melhor se não tivesse dito nada.
Ela ouviu de cabeça baixa. Limpou aquilo que mentiu ser uma irritação do olho combinado com areia e vento, mas, que ambos sabiam ser uma lágrima. Levantou a cabeça, sorriu e abraçou o amigo. “Tudo bem. É por que não era para ser”. Ele retribuiu de forma terna o abraço: “tu é a pessoa do caráter mais incrível que eu já conheci”.
Ela seguiu sorrindo. “Pena que para mim não é o suficiente. E, se tu não me impedir de ir agora, eu, infelizmente não vou mais voltar.
Ele não esperava. Porém simplesmente não conseguiu impedir. Sabia que queria mais do que tudo aquela mulher do seu lado até o fim da vida. Sabia que era muito provável que um dia de uma forma despropositada acabaria se apaixonando. No fundo o que ele queria é que ela estivesse ali esperando. Ele achava que ela estaria. Só que justamente naquele instante ele não conseguiu fazer nada. E ela foi.
Deixou em cada passo uma brincadeira, uma risada, um consolo, uma viagem, um filme, uma música, uma ligação, um e-mail, um atraso, um réveillon, um cartão de aniversário, uma orgia gastronômica, um banho de mar…
Chegou em casa e viu a proposta de uma mudança de estado. Uma bela mudança. Aquilo que por muito tempo ela almejou. Não tinha com quem compartilhar. Não compartilhou. Fez suas malas e foi.
Por algum tempo ele tentou estreitar algum contato. Enviou uma mensagem de aniversário, outra de ano novo… E o tempo passou e ela não voltou mais.
Até que um dia – em que ela já havia neutralizado, amado de novo, vivido aventuras, mudado de emprego e esquecido a gaveta de fotos antigas – choveu na estação. Ela se molhou, voltou para casa, afagou a gata, fez um chá, tomou um banho, pensou na vida, dormiu e ouviu o celular vibrar. Era uma mensagem de um número familiar, porém não mais salvo nos seus contatos. Logo não uniu nome e número a alguma fisionomia. Tudo mudou após a primeira frase.
Só para tua informação hoje consegui senti o que tu sentiu há anos atrás naquela tarde de ano novo quando conversamos sobre a nossa relação de amizade. Isso dói muito.
Por algum tempo ela esperou que ele sentisse a dor dela. Pegou o celular, se espreguiçou. Leu, releu. “É, realmente dói muito mas a melhor parte da história é que a gente olha pra trás e sempre percebe que tudo passa”. Trancou ali, queria dar um tapa de luva. Foi quando lembrou dele sorrindo e dizendo: “Tu tem um caráter que eu até invejo. Sempre um exemplo de conduta”.
É, realmente dói muito, mas a melhor parte da história é que a gente olha pra trás e sempre percebe que tudo passa. Menos a amizade. Então se precisar de algo. Estou aqui.
Enviou a mensagem. Ligou a tevê, acariciou a gata, seguiu a vida. Respirou feliz. Não da circunstância, mas de sua atitude. Muito mais legal do que dar um tapa de luva é verdadeiramente dar a outra face.