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Arquivo da Categoria: baseado no irreal

Pintura

Sarah era arquiteta por necessidade. Pintora por vocação. Porém, seu dom era limitado: só sabia pintar o amor, ou pelo menos, retratos que representassem o mesmo. Fazia muito tempo que ela não pintava sequer uma linha. Foi quando ela o conheceu.

 

Não sabia muito bem explicar como, mas sentia que eram um pro outro e que se encaixavam mesmo sem nunca terem se visto, nunca terem se tocado. Logo ela que a vida fez forte tremeu ao ver aqueles olhos verdes encarando-a pela primeira vez.

 

Uma única vez. E foi o suficiente. Desde então Sarah morre de medo de perder em sua mente a fisionomia daquele que é o seu amor inalcançável.  E por isso, nunca mais parou de pintar. Cada quadro sai com uma beleza impar. A beleza do amor, temperada pelo platonismo da espera. Ela não vai parar de pintar enquanto não tiver aqueles olhos verdes novamente vidrados nos seus. Não vai parar.

Prece

Como todos sabem, ou pelo menos quem lê aqui faz um certo tempo que fiquei solteira. Dei carta de alforria pro meu coração. Que ironia, logo eu que sempre vivi movida pela paixão. Mas é isso, tirei férias. Decidi esperar o príncipe encantado e enquanto ele não vem ser feliz sozinha. E quer saber? Estou bem obrigada.

 

Falando, entretanto sobre príncipe encantado me lembro de uma vez, faz um tempo já. Eu tinha lá os meus 14 anos acho. E escrevi uma carta indireta para Deus, pedindo o meu príncipe encantado. Na época publiquei no meu primeiro blog, que não existe mais. Só que aquela carta era uma farsa. Nela, eu forjava o acaso. Na minha cabeça o príncipe já existia. E eu mudei minha personalidade e fiz tudo baseado nele. Minha intenção era obviamente de que ele lesse aquilo e descobrisse que eu era a mulher da vida dele.

 

Parei pra pensar o que é, no presente momento, a noção de príncipe encantado que eu tenho. Cheguei a conclusão que eu provavelmente não vou encontrar. Mas tudo bem, adaptações acontecem. Quero, no entanto reescrever de forma honesta o que fiz no passado.

 

Querido Papai do céu,

 

A primeira coisa que eu tenho a dizer é desculpa. Sei que o Senhor está longe de ser ingênuo. Sei que o Senhor conhece o mais íntimos dos desejos de todos os corações. Por isso tenho certeza de que a mentira em forma de tolice inocente de uma adolescente apaixonada por um dos amores de sua curta vida.

 

Hoje, tenho um coração cheio dos meus amigos e da minha família, meus reais amores. De paixão carnal, no entanto, ele está vazio.

 

Se fores me dar um príncipe encantado. Se achas que eu mereço faça que ele seja uma pessoa bonita. Perdoa-me por parecer fútil já na primeira frase do pedido. Ninguém melhor do que tu para saber que eu sei amar a beleza interior. E prezo muito. Porém quero alguém que encha os meus olhos quando acordar e olhar para o lado. Um anjo dormindo.

 

Quando o anjo acordar, que me mostre a cada dia que guarda no seu interior os maiores princípios. Que seja honesto. Em primeiro lugar consigo mesmo. Que tenha vontade própria, pois só assim saberá respeitar as minhas.

 

Que entenda que eu sofro da síndrome da borboleta. E isso me torna uma pessoa que só saber ser feliz se puder voar. Mas, se ele quiser, que saiba que serei a primeira a dar a mão e levá-lo comigo. Por isso, não pode ter medo de altura. Precisa sonhar, precisa ter sonhos, precisa ter metas. Não pode, porém ficar só sonhando sem ter os pés no chão. Quem pisa somente em nuvens acaba não indo adiante. E eu tenho necessidade de ir pra frente.

 

Que seja homem. Daqueles com H maiúsculo. Que saiba que existem diferenças entre homens e mulheres e que isso que nos torna especiais. E que embora eu saiba me defender sozinha, gosto de saber que ele preza a mulher que tem do lado. Que aceite que eu gosto de futebol e que posso saber tanto quanto ele, sem ser menos eu e sem fazer dele menos ele.

 

Que seja homem o suficiente para me fazer rir e para rir de mim. Para fazer guerras de travesseiro, para me ajudar de forma desastrada a cozinha e para alegrar qualquer ambiente, em qualquer hora. Precisa gostar de andar de mãos dadas e de abraçar pela cintura.

 

 

Que seja corajoso o suficiente para aventurar-se por aí, mesmo que o aí seja as paredes do nosso quarto. E que a coragem seja suficientemente grande para que ele demonstre seus sentimentos. Sendo assim, que saiba entender que eu preciso extravasar carinho, e que isso não lhe dará nunca o direito de se sentir seguro de si. Por mais segurança que se tenha, que me conquiste a cada dia.

 

Que goste do dormir e de fazer festa, que goste da minha família como se fosse dele, e que goste de cachorros e crianças. Até porque a maior delas estará do lado dele. Por isso é fundamental gostar de música alta, chocolate e parque de diversões.

 

Por fim, peço que ele exista. E se não existir que o Senhor nunca permita que eu deixe de sonhar. Que eu jamais deixe de acreditar nas pessoas. Que eu aprenda com quem quer que seja que mesmo que as pessoas não sejam como aquelas pessoas que pedimos para Deus, aquelas com quem sonhamos, mesmo assim, elas são especiais.

 

Que o Senhor me dê quem eu mereço, e que esse alguém me faça alguém melhor, e a recíproca seja verdadeira.

 

Nua

Ela se olha no espelho, nua. Se aproxima de seu reflexo envolta em uma toalha. E ali se enxerga, nua.
Vê sua testa lisa. Pensa no quão já enrrugou ao pensar na solução para mil problemas. E seu nariz, como é belo! Arrebitado, fino. Quanto ele serviu para que ela se entorpecesse na juventude.
Fazia muito tempo que havia largado o pó. Hoje em dia nem um fino queimava mais. Tomava um Prozac partido ao meio. Mas só vez que outra, quando a barra tava demais.
Aproximou-se ainda mais do espelho. Viu seus olhos. Todos diziam que era a parte mais atrente de seu rosto harmonioso. Outros diziam que olhos verdes não inspiravam confiança. Talvez eles estivessem certos.
Lembrou das vezes em que chorou. Logo ela, sempre tão rígida e em contraponto tão frágil. Depois de fazerem amor ele sempre a envolvia e dizia que ela era o seu cristal raro.
Um dia ele foi embora. E o olho dela ficou vermelho, e quando estava prestes a chorar sangue, decidiu enrigecer o coração. Pra sempre.
Sua boca doce derivou feito um vinagre proveniente de veneno. Decidiu que nunca mais acreditaria em ninguém.
Doze natais haviam se passado e ela estava ali, nua. Lembrou di que cada pedaço do seu reflexo representava. Decidiu remontar-se. Prendeu o cabelo em um coque levemente desfiado. Maquiou-se como que se cobre de porcelana. Colocou seus brincos dourados e o colar preferido. Vestiu o vestido de veludo vermelho, era o mais bonito. Subiu no salto e olhou ao seu redor. Era um império e era seu. Havia vencido.
Seu interior, no entanto estava vazio. Sentia-se sozinha. Lembrou do Prozac. Aquela cartela inteira que havia em sua cabeceira seria o suficiente.

A festa

Eles se conheciam de uma data não tão longa, porém, intensa. Grandes amigos. Daquela noite tornaram-se cúmplices. Tudo pareceu diferente quando ele a viu girar pelo salão com sua saia de chita e sua rasteira colorida.

“Me abraça, me aperta
Me prende em tuas pernas
Me prende, me força, me roda, me encanta
Me enfeita num beijo”

Aquilo soou como uma ordem. Não era um absurdo. Ambos livres e independentes. Só que até então era aparentemente impensado. Mas, só aparentemente, visto que mesmo antes de tal festa eles se desejavam de forma intensa.
Primeiro ele a abraçou e a apertou forte. Olhou fundo em seus olhos. Ela correspondeu e ele pela primeira vez se sentiu livre para beijá-la.

“Desde a primeira vez que eu te vi sabia que tu era a mulher mais linda do ambiente”.

Que beijo, que gingado, que química. Levou-a para casa. Encantou-se pelo seu sorriso. Hipnotizou-se em seus olhos. E abraçados de forma pueril juraram nunca deixar que aquela noite findasse.

A menina-mulher da saia de chita adormeceu como um anjo. Enquanto ele alisava seu braço de forma suave, beijava seu ombro e pensava que mesmo sem tocá-la estava convencido de que ela era mulher da sua vida.

Dormiu era quase de manhã. Ao acordar percebeu que nada passara de um sonho bom.

Em xeque [final]


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Marcos sempre tão quieto, sempre tão analítico. E Janaína sempre tão dinâmica e espontânea. Os fatos não mudaram Marcos. Mas mudaram Janaína, fazendo com que ela criasse um véu. E gelasse.

O silêncio precisava ser quebrado embora ela rezasse para todos os santos que isso não acontecesse.

-Tá tudo bem contigo – perguntou Marcos, escondendo sua ansiedade atrás de uma jogada calma com a torre.

A calma. Ah, a calma! Virtude que Marcos esbanjava e Janaína tinha déficit. A hora da verdade havia chego e de nada adiantou tentar evitar. Era difícil explicar aquilo que nem mesmo a ela fazia sentido.

-Ótimo – disse ela de forma ambígua, visto que, havia comido o cavalo – Por que não estaria? – retrucou com seu sistema autodefensivo ligado.

Janaína era falante ao natural. Ironicamente, Marcos sabia o quão difícil seria fazer com que ela falasse dessa vez. Ele conhecia Janaína. Talvez tanto quanto ela própria. Desconhecia, porém, o mais importante: o pavor que ela estava de ter que desenterrar um passado que decidiu esquecer sem razão aparente ou lógica.

-Porque não é isso que dizem os teus olhos.

O olhar. Ah, o olhar! Desde antes de criarem intimidade, Marcos já se rendia àquele olhar. Doce sem ser tolo. Amável sem ser ingênuo. Talvez, do saudosismo cabível naquilo que se viveu somente em pensamento, o elemento que mais fazia falta era o olhar. Como poderia ter mudado tanto?

De repente, entre um peão e uma oportunidade perdida de comer o bispo, uma crise catártica tomou conta de Janaína. E ela desabou.

-Não. Não ta tudo bem.
-Mas..
-Eu acabei de dizer que tava tudo bem, mas não ta.
Marcos colocou Janaína em xeque.
-Desenvolva.
-Não sei explicar. Era pra estar tudo certo no lugar. Era pra estar feliz. E me sinto vazia. Acho que mudei o meu estilo de vida.
-Não é isso que você deve questionar em si agora.
-E o que é então – Janaína perguntou enquanto escondia sua rainha.
-A questão, minha cara – Parou, pensou no jogo, movimentou lentamente uma peça – Não é ter mudado o estilo, mas sim o por que de tal ato.

Janaína não estava só em xeque. Era também choque. Não sabia o que dizer. Não tinha o que dizer, embora houvesse muito a ser dito.

-Foi tudo tão de repente. Não tenho nem como te explicar. De uma hora pra outra, veio outro alguém.

A verdade é que Janaína precisava sentir-se segura. Sua carente alma ainda adolescente aspirava por insanidade. Foi algo acontecido de momento e o momento se prolongou.

-O que mais me intriga não é nem a rapidez do fato. Mas o por que tu não me contou.

Ela precisava pensar. Na verdade, o que ela precisava mesmo era respirar. Mas não podia. Estava em meio a uma partida de xadrez.

-As coisas giraram. Na verdade seguem girando – complementou em um tom mais baixo de voz.

Sentimentalmente Janaína estava feliz. Estava segura. Não queria mudar isso. Em contraponto não sabia o que fazer. Precisava defender a sua rainha. Precisava se defender. Mexeu sua torre e continuou falando.

-Eu tenho tudo que eu preciso para ser feliz. E de certa forma me sinto estranha. Parece que me falta…
-Voar – completou Marcos enquanto encurralava o Bispo com seu cavalo.

Janaína levantou as sobrancelhas. Voar? Ele estava louco? Marcos, a pessoa mais centrada que ela conhecia falando em voar? Pensando em tirar os pés do chão? Não fazia o menor sentindo.

-Minha cara, é mais simples que um jogo de xadrez. De que adianta tu querer viver, se ultimamente estás grudada no chão.

Tinha lógica. Era a prisão que fazia com que Jana se sentisse daquela forma. Um filme de sua vida passou e ela pela primeira vez, ficou mais do que sem resposta: Perdeu também a ação.

-E será que não há como mudar isso agora? – Marcos disse, esperando a ação da adversária.
-Não sei – tremeu e errou a jogava. A rainha estava entregue.
-Quanto mais tarde não é pior?

Xeque-Mate. Não havia mais o que discutir.

Janaína pensou durante muito tempo sobre as palavras de Marcos. Decidiu que sua estava bem daquele jeito e que não queria mudar. Descobriu que amava o amor e sendo assim não podia se permitir amar. Não podia deixar levar-se pela inconseqüência. Tinha cansado de voar e por isso fixou-se em seu porto seguro. Talvez ele tivesse razão. Porém sua escolha foi tomada e sendo assim, ela nunca saberá.

Em xeque

Janaína nunca havia tido interesse por jogo de xadrez. Não sabia jogar. Nunca se dispôs a aprender. Sendo assim, sempre dizia que não estava afim de uma partida.

Naquele dia, porém, o destino trouxe a vontade juntamente com os passos sempre sérios e comedidos dele.

Janaína não sabia jogar xadrez. Mas sabia desafiar Marcos. E gostava disso. Ela sabia que, no fundo, ele também sentia uma ponta de prazer ao ser desafiado, ainda que fosse somente para rebater e gerar um debate sobre o assunto.

Janaína sabia intrigar Marcos em seus desafios. Marcos, por sua vez, gostava de debater com Janaína. E era bom nisso, não perdia uma.

Janaína contra-argumentava com Marcos tão bem quanto jogava xadrez. Isso o agradava. E a ela também. Pensava que Marcos de alguma forma inexplicável a fazia crescer. Janaína era sedenta por conhecimento. Crescimento era uma necessidade.

O jogo começou.

- Já vou avisando que não sei jogar – avisou Janaína com sua mania torpe de sempre andar na defensiva – Marcos, assentiu.

O silêncio dava o toque ao ambiente. Para eles, era como se cada jogada representasse um esclarecimento que meses antes fora calado. O destino não esquece dos mal resolvidos e por isso colocou Marcos e Janaína ali, novamente, frente-a-frente. Como da primeira vez. O silencio tratou de condená-los pelos pecados cometidos.

Ambos erraram. Ele esperou demais, deixou que seus limites e fantasmas passados o impedissem de tentar. Ela, com uma carência absurda e uma vontade de ser amada não soube esperar por ele. E foi amar.

E agora ambos estavam ali. Frente-a-frente, mediados pelas jogadas de um tabuleiro. Com coisas a dizer, doía ficar calado mais uma vez. E aquela era a última chance de falar algo.

[Continua...Ou não.]

Ana (e) Paula

Ana e Paula se completavam até no nome que parecia um só. Assim como elas tamanho as semelhanças.

Um dia Paula sentiu um medo tremendo de perder seu amor para Ana que não sabia de nada. Decidiu agir sem medir as conseqüências e acabou perdendo Ana.

Ana nunca mais conseguiu ver Paula como seu complemento. Paula nunca mais conseguiu agregar-se na vida de Ana.

Muitos anos se passaram desde que Paula partiu. E agora estava de volta. Ao ver Ana do outro lado da rua pensou que tudo poderia ter ficado no passado de adolescentes inconseqüentes.

Mas não passou. Para Ana, tudo poderia ser feito menos um ato daqueles. Era inveja? Infundada! Foi pecado. Foi mortal. Matou a amizade. Por muito tempo Paula e seus atos incomodaram Ana. Até que ela foi embora e sua alma aliviou-se.

Paula sabia que não era nada digno o que tinha feito. Preferiu esconder num sorriso e num abraço. Nunca mais tiveram o mesmo efeito.

Quando avistou Ana decidiu ver a amiga mais de perto. Mas sua alma estava corrompida e intimamente queria saber se ela estava bem. E como estava. Tão bem que passou reto e nem olhou para trás.

Paula nunca saberá se Ana a viu naquela tarde de sol. Nunca saberá se Ana ainda se lembra dela. Sua única certeza é que o tempo e sua alma a fizeram vazia. E agora não dá mais pra esconder como na juventude.

Conto de fadas moderno

Era uma vez uma princesa moderna que namorava um plebeu. Ele não merecia o amor dela, e todos os dengos e chamegos que ela dedicava ao mesmo. Embora fosse um mero cidadão de papel, a princesa o tratava como uma jóia rara…

Esqueceram de avisar ao plebeu que a história da Cinderela era outra e eis que ele virou pó depois de um baile de carnaval. A princesa por sua vez foi ao banheiro, tirou sua máscara e respirou fundo. Chorou. E percebeu aquilo tudo era a maior besteira na qual ela havia se enfiado. Tirou o seu batom Lâncome da sua bolsa Prada, retocou sua maquiagem e foi dançar.

Entre uma marchinha e outra esbarrou com ele. Era totalmente diferente do plebeu. Gentil, bonito, sorridente. Olharam-se. A princesa estava decidida: era com aquele príncipe que ela iria se casar. Agarrou-o naquela noite mesmo sem a menor pretensão de solta-lo.

Os dias ao lado do príncipe eram os melhores. Flores, bombons, poesias. Tudo era mágico. Inclusive seu caráter que, de tão encantado perdeu o efeito e ele se revelou. Virou um sapo nojento. Que deixou a princesa moderna irritada e jurando nunca mais acreditar nessas historias de final feliz.

Porém a maré sempre vira pra quem é merecedor, e eis que o príncipe voltou das férias da terra do nunca e apareceu na vida da princesa. E dessa vez ela tinha certeza que era pra sempre. Um príncipe moderno feito ela. Idéias e sonhos, iguais aos dela. Enfim ela podia dormir visto que tinha bons motivos para sonhar.

E foi assim que em uma tarde de primavera adormeceu em seu berço dourado. Na sua mente uma cena linda onde caminhava com seu príncipe de mãos dadas. Ela sorria com a cabeça no travesseiro quando seu telefone tocou. Abriu os olhos eufórica: era o príncipe!!! Dando um toque só para tocar um pouco mais seu coração.

Quando abriu seu lindo celular rosa cravado de diamantes não acreditou. A chamada não atendida era do sapo nojento que após muito tempo havia ressurgido das cinzas. Ficou furiosa por ter tido seu sono da beleza interrompido por um ogro e decidiu vingar-se. Ligou de volta.

-Alô.
-Oiem..
-Quem ta falando?
-Sou eu..
-Eu quem? Me ligaram agora desse número e eu não tenho ele nos meus contatos.
-Eu, o príncipe…
-Principe, príncipe…Não conheço ninguém com esse nome. Tu deve ter te enganado.

E mediante ao silêncio perplexo do outro lado da linha sentiu-se nova. Fechou o celular, soltou uma gargalhada, e dormiu.

Je ne peux pas oublier l’IT

Um copo de vidro cheio de gelo e wisky importado em um bar de luxo. Era isso que escolheu para sua vida. Tinha carro, apartamento, se vestia bem. Aos trinta era o maior advogado do Estado.

As mulheres o consideravam um “tipão”. Podia sair com as mais variadas. Os mais belos protótipos estavam “na sua”: Era a ruiva dos olhos mel, a morena do olho verde, a loira dos olhos azuis.

No entanto, jantar sozinho, ainda que em bom restaurante, lhe fazia sentir um vazio. Olhava para o celular – que besteira – pensava, não havia ninguém para ligar perguntando se demoraria a chegar em casa.

Foi então que, entre uma garfada e outra de salmon ao molho de alcaparras gratinadas, lembrou-se dela. Seu pensamento o remeteu para um passado distante onde era apenas um adolescente.

Um jovem que havia ingressado a pouco no curso de direito. Estava sentado de frente para a orla da cidade. Via o sol se pôr e filosofava sobre a beleza do simples enquanto fechava seu palheiro de alecrim.

E era nesse momento que seus olhos eram vendados por mãos doces. Sabia quem era só pelo aroma que aquela pela macia exalava.

“Cris”

“Seu bobo. Assim não vale. Tu sempre acerta.”

“E por isso mereço um premio não?”

Ela sorria. E lhe encarava com uma firmeza que ia de encontro à doçura que possuía. Depois disso, seus lábios eram quase como um imã.

Ele gostava de segurá-la pela cintura. Ver como era pequena, como parecia frágil. E como mais uma vez seu intelecto ia de encontro a aparência. Ali ficavam até anoitecer. Ele, ela e as luzes da cidade.

Planos? Os mais diversos. Brincavam que os filhos se orgulhariam em ter uma mãe professora de francês e um pai advogado…

Até que ele decidiu que ela era sonhadora demais e foi embora. Largou as palavras que eram garantia de um futuro bom pela ambição de uma vida cômoda.

E ali estava: importante, reconhecido, sozinho.

Doeu em seu peito. Queria absurdamente enrolar os cachos dela novamente. Se pudesse voltar atrás, imploraria de joelhos o perdão por sua burrice. Juraria voltar para buscá-la.

Sentia uma necessidade absurda de ouvir, ainda que pela última vez.

“J’taime”

Ao rumar ao carro, alguém sentado próximo a porta lhe fez parar. O mesmo perfume o qual acabara de lembrar. Olhou para trás e viu as costas de uma pequena mulher. Sentiu um arrepio. Quis voltar. Não o fez: Ele escolheu trocar seu destino na metade do caminho. Era tarde para querer reparar sua vida avessa.

Decidiu apenas escrever um bilhete e pedir para o garçom entregar juntamente com uma folha de alecrim:

“Je ne peux pas oublier l’IT”

E partiu.

Amigo L,

Coloco essa carta em tua caixa de correspondência, pois sei que dentro de ti há um quê de curiosidade e confesso que estou cansada de te falar e sentir no ar que o que digo está sendo inútil. Registro então, nessa folha de papel arrancada da última página de meu antigo caderno de biologia, minhas palavras. Eternizo-as porque nunca mais perderei meu tempo em te dizê-las.
Não quero que tudo continue na nossa batalha egocentrica por quem vai encarar mais. Decidi te surpreender dizendo que não te quero mais.

Perdeu o sentido olhar no espelho diversas vezes em busca de uma harmonia para os teus olhos. Não quero mais me dedicar aos teus gostos. Não me completa mais contemplar as tuas vontades. Tua auto-suficiencia consome a minha necessidade constante de dedicação.

Nasci para voar alto e teu olhar profundo não tira mais os meus pés do chão. Fui planejada para transbordar e me corrói o fato de tu não mais ser como gota d’água para a loucura.

Decidi me libertar do teu gingado, do teu gosto, da forma como passa as mãos pelos meus cabelos e diz que eu sou extremamente linda. Do jeito como me envolveu no teu abraço para que a noite nunca mais passasse.

De nada me adianta guardar um quebra-cabeças que só faz sentido dentro da minha alma. Cada segundo foi vivido intensamente e não me gera nenhum arrependimento.

Sei, que na minha lista secreta de qualidades do homem perfeito, tu preenches como ninguém os quesitos. Se eu pudesse escolher qualquer pessoa do mundo, ainda assim, seria tu. Só que dessa vez eu optei pela minha vida, pela minha vontade, pelos meus desejos, meu ego. E te escrevo tal bilhete para me despedir.

Despeço-me de tudo aquilo que te dei. A partir de agora será como um sonho de uma noite de verão. E só. Deixo no entanto, todo o carinho do mundo e a certeza de que em mim terás sempre a irmã, a amiga, mas, não mais a amante.

B,

PS.: Não esqueça de levar os CDs para o escritório na segunda-feira.

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