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Arquivos Mensais: Janeiro 2012

Chega de saudade

Daqui a dez minutos não será mais o dia da saudade. Aliás, quando eu clicar em “publicar” esse texto provavelmente nem será mais 30 de janeiro. Enfim, até o dia da saudade já ficou…na saudade.

Isso me remete brevemente ao final de semana. Nele, vivenciei amigos concluindo o curso de jornalismo. Abracei pessoas muito queridas e disse: “vamos continuar nos vendo”. Foi quando percebi que na universidade deixei vínculos. Assim como em qualquer lugar.

E passei a me questionar sobre essa malandra da saudade. Comecei refletindo na doidera de que essa palavra não existe em muitas línguas – é só em português e mais uma que não me recordo qual.

Como as pessoas lidam com algo que não têm nem vocábulo para expressar? A verdade é que nem nós lidamos.

Tudo é estranho no começo. No início dói pra caramba, aperta o peito. Parece que jamais vamos conseguir nos livrar daquela tonelada que invadiu nosso coração. Depois vai fechando. De fora para dentro. Não choramos mais tanto, não aperta mais a memória, até que para de doer. E vira lembrança. Ou não.

Como toda a regra, a saudade tem sua exceção. Ela é uma cicatriz nos remendos da nossa existência. E como uma cicatriz ela pode doer quando o tempo está para chuva, ou quando despercebidamente nos deparamos com fotos, cartas…

Pode ser que até choremos de novo. Mas daí o nosso próprio coração vai se encarregar de nos consolar e lembrar de que a saudade só existe porque foi bom. E se foi bom, não é preciso da saudade,  podemos nos reservar apenas a guardar bons momentos. Assim como os dicionários alheios.

Sobre ser jornalista…again

Há muito tempo foi publicado um texto sobre a arte de ser jornalista. Recebi um comentário nele mesmo sobre o equívoco de procurar textos na internet e acabar publicando coisas erradas ou mal adaptadas. Sendo assim, coloco o verdadeiro trocadilho sobre a Arte de ser jornalista. E agradeço especialmente à Priscila, fonte do original.

 

Jornalista
Não passeia – viaja a trabalho;
Não conversa – entrevista;
Não faz lanche – almoça em horário incomum;
Não é chato – é crítico;
Não tem olheiras – tem marcas de guerra; Não se confunde – perde a pauta;
Não esquece de assinar – é anônimo;
Não se acha – ele já é reconhecido;
Não influencia – forma opinião;
Não conta história – reconstrói;
Não omite fatos – edita-os;
Não pensa em trabalho – vive o trabalho; Não vai à festas – faz cobertura;
Não acha – tem opinião;
Não fofoca – transmite informações inúteis;
Não pára – pausa;
Não mente – equivoca-se;
Não chora – se emociona;
Não some – trabalha em off;
Não lê – busca informação;
Não traz novidade – dá furo de reportagem;
Não tem problema – tem situação;
Não tem muitos amigos – tem muitos contatos;
Não briga – debate;
Não usa carro – mas sim veículo;
Não é esquecido – é eternizado pela crítica;
Jornalista não morre – coloca um ponto final!

Tapa de Luva

O dia havia sido frio e ela estava ensopada de uma chuva  inesperada na saída do metrô. Chegou em casa, afagou sua gata tomou uma ducha enquanto a água para o chá fervia. Fez uma caneca bem grande, deitou-se no sofá e dormiu.

Não sabia se sonhava ou se apenas pensava em forma de transe, mas parou para refletir na sua vida. Provavelmente um dos efeitos da chegada da fase balzaquiana fazia um pouco mais de cinco anos desde que ele havia ido embora.  Tão estranho.

 Era reveillon de 1995 e eles comemoravam o sucesso profissional que havia se consolidado naquele ano. Sentados em uma duna de areia refletiam como era legal chegar aos 20 anos livre de qualquer droga que não fosse o rock’n’roll. Eram os melhores amigos desde que o mundo sabia da existência de ambos. Ele sempre dizia que ela “sou eu de calças”. Ela ria. Mas no fundo sempre quis ser mais que isso.

Mais de cinco anos se passaram desde aquele reveillon de 1995

 E foi então que pela primeira vez na história deles ela teve coragem de “tirar as calças” e disse na cara dura que não queria ser só sua amiga. Que doía para ela posar de casal do ano ao seu lado e no outro dia sair com qualquer uma.

Ele ficou chocado. Não sabia o que dizer. Disse que nunca tinha visto de outra forma que não uma amiga. Que a amava daquele jeito.

Teria sido melhor se não tivesse dito nada.

Ela ouviu de cabeça baixa. Limpou aquilo que mentiu ser uma irritação do olho combinado com areia e vento, mas, que ambos sabiam ser uma lágrima. Levantou a cabeça, sorriu e abraçou o amigo. “Tudo bem. É por que não era para ser”. Ele retribuiu de forma terna  o abraço: “tu é a pessoa do caráter mais incrível que eu já conheci”.

Ela seguiu sorrindo. “Pena que para mim não é o suficiente. E, se tu não me impedir de ir agora, eu, infelizmente não vou mais voltar.

Ele não esperava. Porém simplesmente não conseguiu impedir. Sabia que queria mais do que tudo aquela mulher do seu lado até o fim da vida. Sabia que  era muito provável que um dia de uma forma despropositada acabaria se apaixonando. No fundo o que ele queria é que ela estivesse ali esperando. Ele achava que ela estaria. Só que justamente naquele instante ele não conseguiu fazer nada. E ela foi.

Deixou em cada passo uma brincadeira, uma risada, um consolo, uma viagem, um filme, uma música, uma ligação, um e-mail, um atraso, um réveillon, um cartão de aniversário, uma orgia gastronômica, um banho de mar…

Chegou em casa e viu a proposta de uma mudança de estado. Uma bela mudança. Aquilo que por muito tempo ela almejou. Não tinha com quem compartilhar. Não compartilhou. Fez suas malas e foi.

Por algum tempo ele tentou estreitar algum contato. Enviou uma mensagem de aniversário, outra de ano novo… E o tempo passou e ela não voltou mais.

Até que um dia –  em que ela já havia neutralizado, amado de novo, vivido aventuras, mudado de emprego e esquecido a gaveta de fotos antigas – choveu na estação. Ela se molhou, voltou para casa, afagou a gata, fez um chá, tomou um banho, pensou na vida, dormiu e ouviu o celular vibrar. Era uma mensagem de um número familiar, porém não mais salvo nos seus contatos. Logo não uniu nome e número a alguma fisionomia. Tudo mudou após a primeira frase.

Só para tua informação hoje consegui senti o que tu sentiu há anos atrás naquela tarde de ano novo quando conversamos sobre a nossa relação de amizade. Isso dói muito.

Por algum tempo ela esperou que ele sentisse a dor dela. Pegou o celular, se espreguiçou. Leu, releu. “É, realmente dói muito mas a melhor parte da história é que a gente olha pra trás e sempre percebe que tudo passa”. Trancou ali, queria dar um tapa de luva. Foi quando lembrou dele sorrindo e dizendo: “Tu tem um caráter que eu até invejo. Sempre um exemplo de conduta”.

É, realmente dói muito, mas a melhor parte da história é que a gente olha pra trás e sempre percebe que tudo passa. Menos a amizade. Então se precisar de algo. Estou aqui.

Enviou a mensagem. Ligou a tevê, acariciou a gata, seguiu a vida. Respirou feliz. Não da circunstância, mas de sua atitude.  Muito mais legal do que dar um tapa de luva é verdadeiramente dar a outra face.

 

 

A noite mais importante do ano

Poucos dias antes da virada, eu e meu namorado assistíamos OC (acho que já citei aqui que não houve no mundo seriado melhor e que os adolescentes brasileiros seriam mais felizes se assistissem isso ao invés de malhação [opinião pessoal]) e em um episódio fomos remetidos a seguinte indagação: Depois do dia dos namorados, ano novo é a data mais importante da vida de uma mulher.

Ano Novo representa o dia mais importante do ano, depois do dia dos namorados. E por quê?

Nunca me detive muito nisso, datas de final de ano e essas coisas. No entanto, ao ouvir pela terceira vez essa frase conclui que lá no fundinho ela era real para mim também. Toda aquela coisa de renovação e de mudança (oras, até os erros podem ser diferentes visto que é errando que se aprende).

Aparentemente comecei esse texto por lado em que nem imaginava, minha intenção na realidade é atentar para aquilo que fiz após a noite de ano novo. Depois de ter ficado reflexiva, pensando nas pessoas que pediam esmola enquanto íamos jantar na beira da praia. Confesso que o cálculo feito por cima de quanto se gasta em fogos ou bebidas ou festas nesse período e o quanto disso poderia ser revertido em coisas pouco menos fúteis.

Pensar que eu reclamo de Deus que não ouviu determinados pedidos pontuais quando na verdade Ele me coloca no topo da pirâmide social fez do meu ano novo um momento interior, ainda que cercada pela multidão de Capão da Canoa*.

E em meio a esse momento meio reflexivo, meio humano, meio revolucionário de sofá, recebi um convite. Ir ao cinema. Justo em uma época de recesso onde poucos lançamentos aparecem. Cercada de duas ou três opções me deparei com a seguinte opção: Noite de Ano Novo.

Prometo que vou presentear quem chegou até aqui com a ausência de spoiler.

O filme é do mesmo diretor de Idas e vindas do amor. Aquele mesmo estilo: água com açúcar, cheio de estrelas de Hollywood, histórias que se cruzam, alguns casais inesperadamente unidos ao final.

Poderia até dizer que o filme é bem meia boca, exceto pelo fato que fez meus olhinhos se encherem d’água na parte final. E por quê? Porque ele traz à tona todos os meus questionamentos anteriores. Se estamos todos rindo para não chorar e desacreditados do mundo julgando o mesmo como um balaio de hipocrisia sem fim por qual motivo comemoramos o ano novo da forma que comemoramos?

Se não achamos mais válido nos questionarmos sobre os necessitados ou tristes, se desistimos em massa de fazer um lugar melhor, se temos em mente que as promessas de um novo ano não serão cumpridas, pergunto: Por que raios comemorar um novo que já é antigo?

Em 2012, ERROS NOVOS. por favor.

Como diz o filme: Se a magia acabou, porque todos se reúnem para celebrar? Eu ouso arriscar. Porque mentimos descaradamente ao nosso senso utópico de realidade. Lá no fundinho todo mundo que algo novo, todo mundo quer ser melhor. Acho que principalmente quem diz que não quer e quem esta pensando no quão hipócrita eu posso estar sendo por dizer que deveríamos beber mais para que outros pudessem comer (eu não coloquei um asterisco lá em cima por acaso, foi prevendo as criticas sobre moral de cueca).

No fim das contas, embora não mudemos é isso sim que a gente busca. Inclusive nos erros. ERROS NOVOS POR FAVOR, pois é errando que se aprende e é aprendendo que se evolui.

Não, esse passa longe de ser o melhor texto que coloco aqui. No entanto, não poderia de registrar o dia em que descobri que Marissa Cooper tinha razão: apesar de dias ruins, o ano novo é uma das datas de maior importância no ano. Apenas divirjo com ela em um aspecto: não é por causa de quem você beijará naquele dia. Mas, sim, da forma em que você decidir abraçar o mundo daqui para frente.

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